Avançar para o conteúdo principal

Fio invisível

Photo by Roman Kraft on Unsplash




O amor tinha vivido desde sempre naquela rua. Sentia-lhe o aroma, o perfume, delicado mas profundamente arrebatador. As ombreiras das janelas eram ornamentadas com as mais belas flores. Das pedras da calçada brotavam o apego, a afeição, o carinho. Tinha as cores do amor, do insaciável amor.
Sentia a rua a envolver-me, a abraçar-me. Caminhava tranquilamente por aquela calçada, outrora pisada por outras gentes, outras histórias, outros amores. Era absolutamente absorvente. Sentia na ponta dos dedos a delicadeza das paredes, frágeis como o amor.
Sentia-me em casa. Faltavas-me, porém, tu. Queria tanto que estivesses aqui comigo. Que sentisses as vibrações desta rua, que, sem querer, nos faz sorrir.
Nem todas as pessoas nos acompanham na longa viagem que é a vida. Às vezes temos que a fazer sozinhos. Não existem pessoas certas, nem erradas. Existem aquelas que não nos largam, lutam e persistem lado a lado connosco. Tu não foste uma dessas pessoas.
Uma antiga crença chinesa diz-nos que “Um fio invisível conecta os que estão destinados a conhecer-se…Independentemente do tempo, lugar ou circunstância…O fio pode esticar ou emaranhar-se, mas nunca irá partir.”
Não era o nosso caso. Quebras-te a linha que nos amarrava. Não eras tu, simplesmente não eras tu o meu destino.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Essência não é um Espaço, é um Estado

Há lugares que não se medem em metros quadrados. Medem-se em respirações. Em pausas. Em silêncios que sabem mais do que qualquer palavra. Essência é assim. Não começa na porta que se abre nem termina na marquesa, no sofá ou na cadeira onde repousas. Essência acontece antes — muito antes — dentro de ti. É aquele instante quase imperceptível em que o corpo te fala, e tu, pela primeira vez em demasiado tempo, deixas de fugir. É o sussurro que te diz “para”. É o murmurinho interno que te pede: “volta”. Essência é o regresso ao que é simples. Ao que é verdadeiro. Ao que permanece quando todas as máscaras caem e nada sobra… a não ser tu. Quando alguém pousa as mãos sobre ti, não está apenas a tocar músculo. Está a tocar memórias. A desalojar cansaços antigos. A abrir espaço dentro do que já estava cheio demais. E, por um momento breve — mas infinitamente teu — o mundo abranda. A respiração desce ao lugar certo. E tu também. Porque Essência não é o lugar onde entras. É o estado em...

Não é Falta de Tempo, é Falta de Prioridade Interna

Dizemos tantas vezes que não temos tempo. Tempo para nós, para parar, para respirar, para sentir. Mas a verdade — aquela que tentamos evitar — é que o tempo nunca foi o problema. O problema é a ordem interna das tuas prioridades. Há sempre tempo para aquilo que decides que importa. Para aquilo que deixas entrar. Para o que permites ocupar espaço dentro de ti. E quando dizes que não tens tempo, o que estás realmente a dizer é: “Eu ainda não me escolhi.” Não por maldade. Não por fraqueza. Mas por hábito. Hábito de ficar para depois. Hábito de resolver o mundo antes de resolver-te a ti. Hábito de carregar culpas que não são tuas. Hábito de acreditar que cuidar de ti é luxo — quando, na verdade, é fundamento. O corpo percebe. A mente protesta. A alma grita em silêncio. E tu respondes sempre com a mesma frase automática: “Agora não dá.” Mas dá. Daria sempre — se fosses prioridade na tua própria vida. Quando deixas de te escolher, o tempo não desaparece. Ele fica lá. Fica à tua e...

☕ 2026: Menos Ruído, Mais Verdade

Entrámos em 2026 cansados. Não cansados de trabalhar — cansados de decidir, de reagir, de estar sempre disponíveis, sempre ligados, sempre a responder a estímulos que raramente escolhemos conscientemente. Vivemos rodeados de informação, mas com pouca clareza. Temos mais ferramentas do que nunca, mas menos silêncio interior. Temos acesso a tudo — e tempo para quase nada. Não é falta de oportunidades. É excesso de dispersão. A tecnologia prometeu libertar tempo, mas muitas vezes apenas acelerou o ritmo. A inteligência artificial entrou no trabalho, nas casas, nas decisões. Automatizámos processos, encurtámos caminhos, multiplicámos possibilidades. Mas há algo que nenhuma máquina resolve: a qualidade das escolhas que fazemos quando ninguém está a olhar. O mundo não precisa de mais velocidade. Precisa de mais critério. 2026 não chega como um ano mágico. Chega como um espelho. Um espelho que nos obriga a olhar para a forma como estamos a viver, a trabalhar, a relacionar-nos, a...